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O Brasil virou o dono do algodão — e plantou menos para colher mais

O Brasil é o maior exportador de algodão do mundo, Mato Grosso sozinho produz mais que os Estados Unidos, e a safra recorde de 2025/26 veio com menos área plantada. A camiseta que você veste tem sotaque.

17 de setembro de 2026·SOUDOAGRO

Faça a pergunta numa mesa de bar: quem é o maior exportador de algodão do mundo? Vai ouvir Estados Unidos, Egito, Índia, China. A resposta é o Brasil — e é assim desde 2023/24, o que ninguém na cidade ficou sabendo. No ano comercial que terminou em julho de 2026, o país embarcou 3,37 milhões de toneladas de algodão, recorde, 19% mais que no ano anterior, e recebeu US$ 5,3 bilhões por isso (Abrapa, ago/2026). Há 25 anos, o Brasil tinha cerca de 3% das exportações mundiais da fibra. Hoje tem mais de um terço (Cogo Inteligência em Agronegócio, set/2026). A camiseta que você está vestindo, o jeans, o lençol: há uma boa chance de que a fibra tenha nascido numa fazenda de Mato Grosso ou do oeste da Bahia.

De 3% para um terço em 25 anos

A virada não foi sorte nem clima. Enquanto os Estados Unidos reduziram a área plantada com algodão em cerca de 53% ao longo das últimas décadas, o Brasil ampliou a sua em 120% (série histórica compilada pela Cogo, set/2026). O algodão brasileiro é colhido em terras altas do Cerrado, na segunda metade do ano — e, em Mato Grosso, quase sempre depois da soja: o produtor colhe a soja em janeiro e planta o algodão no mesmo talhão. É uma cultura de fazenda grande, tecnificada, com produtividade entre as maiores do mundo — na safra 2025/26, 2.053 quilos de pluma por hectare, recorde (Conab, set/2026). "Pluma" é a fibra já separada do caroço; é ela que vira fio.

O resultado é um ranking que soa estranho para quem só conhece o algodão pela etiqueta. O Brasil é hoje o terceiro maior produtor do planeta, atrás de China e Índia, e o maior exportador. A projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para 2026/27 mantém o país na frente do antigo líder: 3,33 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil contra 2,68 milhões dos americanos (USDA, via Abrapa, ago/2026).

Se Mato Grosso fosse um país

Aqui a história fica melhor. Mato Grosso, sozinho, produziu cerca de 2,99 milhões de toneladas de pluma na safra 2025/26. Se fosse um país, seria o terceiro maior produtor de algodão do mundo — à frente dos Estados Unidos, que devem colher 2,79 milhões na temporada atual (ranking da Agroconsult com dados do USDA; o estado no ciclo 2025/26, os demais países no ciclo mundial 2026/27). A Bahia, com 982 mil toneladas, produz o mesmo que a Austrália inteira.

Não é vantagem de tamanho. É produtividade: Mato Grosso e Bahia bateram recorde de rendimento por hectare nesta safra, os dois ao mesmo tempo (Rally da Safra 2026 – etapa algodão, Agroconsult, set/2026).

Plantou menos, vai colher mais

O dado mais surpreendente da safra 2025/26 é esse: o Brasil plantou menos algodão e vai colher a maior safra da sua história.

A área caiu para cerca de 2 milhões de hectares — 3,2% a menos que na safra anterior pela conta da Conab, 6,3% a menos pela conta de campo do Rally da Safra. E a produção subiu: 4,14 milhões de toneladas de pluma, a maior da série histórica, 1,5% acima de 2024/25 (Conab, 12º levantamento, 15/09/2026). No campo, a Agroconsult viu ainda mais. Depois de três equipes visitarem mais de 30 fazendas, grupos e cooperativas — o equivalente a 36% da área de algodão da Bahia e 59% da de Mato Grosso —, o diagnóstico do Rally apontou 4,41 milhões de toneladas, com chance de mais 90 a 100 mil quando o beneficiamento terminar (Agroconsult, set/2026). Os dois números são recorde. A diferença entre eles é a diferença entre um levantamento oficial e um diagnóstico feito com a colheita ainda em curso: quando o Rally saiu, só 35% da pluma tinha sido beneficiada, isto é, separada do caroço na máquina.

A conta na mão, pela decomposição da Agroconsult: a área a menos tirou 270 mil toneladas; a produtividade a mais devolveu 380 mil; o rendimento de pluma (quanto de fibra sai de cada quilo colhido) acrescentou mais 30 mil. Saldo: 140 mil toneladas a mais com 130 mil hectares a menos. "Estamos diante de uma safra em que a redução da área não significa uma queda na produção. Observamos em campo um ganho importante de produtividade, resultado da combinação entre clima, tecnologia e manejo", resumiu Heloisa Melo, sócia-diretora da Agroconsult e coordenadora da etapa (Forbes Agro, 10/09/2026).

Por que Mato Grosso plantou menos

Se o algodão vai tão bem, por que o maior estado produtor cortou 150 mil hectares? Por dinheiro, não por clima. O algodão em Mato Grosso é a segunda safra do ano, plantada depois da soja — e disputa o mesmo talhão com o milho. Nesta temporada, o preço do algodão estava baixo e o milho tinha mais liquidez, isto é, era mais fácil de vender e de transformar em caixa na hora certa. Muita gente escolheu o milho. A área de algodão do estado caiu 9,4%, e no nordeste de Mato Grosso a queda chegou a 23% (Agroconsult, set/2026).

Quem ficou no algodão, ficou bem: produtividade recorde, mesmo com a produção do estado 2,6% menor por causa da área.

O clima ajudou — e atrapalhou

Chuvas boas de abril a junho fizeram a produtividade. Mas choveu em julho, e em pontos isolados em agosto, quando a planta já deveria estar seca para a colheita. Isso alongou o ciclo e atrasou a dessecação — a etapa em que se seca a lavoura para colher — e, em parte das áreas, a pluma saiu com mais impurezas e perdeu brancura (Rally da Safra, set/2026). Algodão manchado vale menos. Foi o preço da chuva que, meses antes, tinha enchido as maçãs — o nome do fruto do algodoeiro.

Na Bahia, outra surpresa. O estado irriga cada vez mais: 44% da área de algodão tem irrigação, contra 29% duas safras atrás. A irrigação permite plantar mais tarde, em janeiro e fevereiro, e 35% do plantio baiano ficou nessa janela. Só que, nesta safra, as lavouras de sequeiro — sem irrigação, plantadas até dezembro — renderam mais que as irrigadas tardias (Rally da Safra, set/2026). A lição que os agrônomos anotaram: água ajuda, mas não substitui a época certa de plantar.

Como se sabe tudo isso antes de a colheita acabar

Uma safra se conta antes de ser colhida. O satélite mapeia a área plantada talhão por talhão. Depois, gente com botina vai olhar: três equipes de agrônomos rodaram o oeste da Bahia no fim de julho e Mato Grosso em duas semanas de agosto, de Sapezal a Rondonópolis, contando maçãs por planta, checando a cor da fibra, anotando ervas daninhas e doenças — nesta safra, o caruru, o pé-de-galinha e a mela foram os principais problemas. É trabalho de quem escolheu contar a safra como profissão. E é por isso que o número final ainda vai mudar um pouco: o algodão continua sendo beneficiado até o fim do ano.

O que isso muda para quem veste, não para quem planta

Quase nada no seu guarda-roupa diz "Mato Grosso". A fibra brasileira sai do país em fardos, vira fio na Ásia — a China levou 23% do que exportamos no último ano comercial, seguida de Bangladesh, Turquia, Paquistão, Vietnã e Índia (Abrapa, ago/2026) — e volta como camiseta com etiqueta de qualquer lugar. É o agro invisível: o produto que você usa todo dia sem saber de onde veio.

Vale lembrar também o tamanho da dependência: um em cada quatro fardos exportados vai para um único cliente. E vale lembrar que o Brasil se tornou o maior exportador do mundo num produto em que nunca foi protagonista, com menos terra por tonelada a cada ano. "O Brasil conquistou escala, competitividade e confiança do mercado internacional", disse Gustavo Piccoli, presidente da Abrapa, ao anunciar o recorde (ago/2026). Dia 7 de outubro é o Dia Mundial do Algodão, criado pela ONU em 2021 para uma fibra cultivada por cerca de 24 milhões de produtores, da qual vivem mais de 100 milhões de famílias no mundo (FAO). Boa data para responder certo à pergunta do bar.

Os números

Exportação brasileira, ano comercial ago/2025–jul/2026 — 3,37 milhões de t, recorde (+19%); US$ 5,3 bi · Abrapa, ago/2026

Ranking de exportadores 2026/27 — Brasil 3,33 Mt × EUA 2,68 Mt · USDA, via Abrapa

Safra 2025/26 (oficial) — 4,14 Mt de pluma, recorde; 2,02 Mha (−3,2%); 2.053 kg/ha · Conab, 12º levantamento, 15/09/2026

Safra 2025/26 (diagnóstico de campo) — 4,41 Mt de pluma; 2,07 Mha (−6,3%); 35% beneficiado na data · Rally da Safra 2026 – etapa algodão (Agroconsult, set/2026)

Mato Grosso — 1,42 Mha (−9,4%); 2,99 Mt de pluma; produtividade recorde · Agroconsult, set/2026

Bahia — 425,7 mil ha; 44% irrigado; 982 mil t (+23,2%); produtividade recorde (+20,7%) · Agroconsult, set/2026

Se Mato Grosso fosse um país — 3º produtor do mundo, à frente dos EUA (2,99 × 2,79 Mt) · Agroconsult/USDA

Aprofunde em → SouDaSoja: "150 mil hectares a menos de algodão em Mato Grosso: para onde foi a área" — a disputa milho × algodão sobre a mesma soja, no Instagram @soudasoja a partir de 30/09.

Fontes: Abrapa — balanço do ano comercial 2025/26 (18/08/2026) e nota de abril/2026 sobre exportações e ranking; Conab — 12º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26 (15/09/2026); Agroconsult — Rally da Safra 2026, etapa algodão: e-book de resultados (set/2026) e declarações à imprensa (Portal do Agronegócio, 09/09/2026; Forbes Agro, 10/09/2026); USDA — projeções 2026/27 citadas pela Abrapa; Cogo Inteligência em Agronegócio — "Os Novos Vetores de Crescimento da Próxima Década" (set/2026), série histórica de área e participação nas exportações; ONU/FAO — Dia Mundial do Algodão.